Os escribas e outros conhecedores da lei conduziram a mulher diante de Yeshoua:
- Rabi, esta mulher foi surpreendida em flagrante delito de adultério. Na Torah, Moisés diz-nos que devemos apedrejar esse tipo de mulher. E tu, o que dizes?
Mas Yeshoua nada disse. Baixando-se, ele começou a desenhar com o seu dedo.
Sem dúvida, ele acha que YHWH não olha para as máscaras dos homens. Ele interessa-se pelo seu rosto, pelo semblante que existe por detrás da máscara. Ele contempla o verdadeiro rosto do homem “feito à sua imagem e semelhança” que existe por detrás da máscara de prazer ou dor.
Talvez Yeshoua seja como YHWH – ele não olha o mal; isso não quer dizer que ele o ignore, mas lá onde os outros vêem uma adúltera, ele vê uma mulher; lá onde os outros vêem uma caricatura, ele vê um rosto. E nesta assembleia que brada em alta voz, eles são dois a calar-se, dois a estarem sozinhos. Sem dúvida, dois que estão sofrendo, pois aprendemos a julgar o outro para não termos que sofrer a sua dor.
Yeshoua sabia que essa mulher era infeliz e também corajosa, pois apesar dos riscos envolvidos no adultério, ela não renunciou ao seu desejo e à busca do amor.
Será que, ao menos, ela conheceu o amor ao lado do seu amante? Será que ela conseguiu saborear essa Vida ou será que tudo não passou de um instante para esquecer a morte que a cercava? Ou será que ela se enganou mais uma vez? Yeshoua sabe que essa mulher é infeliz e essa mulher é toda a humanidade que busca a felicidade e o amor e não os encontra mais em si. “Ele veio ao mundo não para julgar ou condenar, mas para que o mundo seja salvo”. O adultério é quando nos enganamos a nós mesmos, quando buscamos a felicidade longe de Deus, lá onde não é possível encontrá-la. Buscamos o amor onde ele pode apenas decepcionar-nos, pois este amor, esta felicidade não são o próprio Ser, o Infinito. O obscuro desejo do nosso desejo é este infinito e nenhum ser finito pode preenchê-lo ou apaziguá-lo. Talvez a humanidade inteira seja adúltera – infelizes de nós quando não mais procuramos Deus em Deus e quando tomamos a criação e as criaturas pelo Criador.
Yeshoua talvez possa estar cansado de todas essas regras e disciplinas dos sacerdotes hebraicos referentes ao comer, ao beber e ao dormir. O essencial não se encontra noutro lugar? Tudo é puro para aquele que é puro, tudo é impuro para aquele que carrega todo o tipo de vícios no seu coração. Quantos enlaces e encontros íntimos entre uma mulher e um marido “legítimos” não são maculados pela falta de amor? Quantos dormem na mesma cama, mas não nos mesmos sonhos? Aquele ou aquela que seguramos nos nossos braços nem sempre é aquele ou aquela que habitam a nossa mente ou o nosso desejo. E as razões pelas quais nos casamos nem sempre são as razões pelas quais nos mantemos casados.
Por isso, aí onde os outros vêem uma falta que é preciso condenar, Yeshoua vê uma infelicidade que é preciso curar. Yeshoua vê o sofrimento e baixa os seus olhos diante do pecado. Ele não procura matar a mulher, ele procura curá-la, libertá-la, pois “YHWH não sente prazer com a morte do pecador, Ele quer que ele viva”. Só podemos libertar-nos de um desejo através de um desejo ainda maior, só podemos libertar-nos do amor através de um amor ainda maior.
Então, Yeshoua levanta-se e diz:
- Que aquele que jamais pecou lhe lance a primeira pedra.
- Que aquele que jamais olhou uma mulher com cobiça lhe lance a primeira pedra.
- Que aquele que nunca se sentiu infeliz, sedento de carinho, lhe lance a primeira pedra.
Que aquele que jamais se deixou seduzir por alguma miragem, que aquele que jamais se enganou ou enganou os outros, que lhe lance a primeira pedra.
Que aquele que não possui desejos, que aquele que nunca roçou ao de leve a dúvida, que aquele que jamais mentiu, lhe lance a primeira pedra.
Após estas palavras, todos os homens se retiraram um por um, começando pelos mais velhos.
Então, Yeshoua pôde olhar a mulher de frente e eis que ela foi lavada pelas águas vivas do seu olhar. Ao mesmo tempo, lavada e incendiada; ela compreende agora que o paraíso e o inferno são a mesma coisa: o olhar que repugna aqueles que não querem nele afogar-se e que ergue aqueles que ousam nele mergulhar é o mesmo.
- Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou?
O único que poderia condená-la é ele… porque é o único que pousa sobre ela um olhar sem sombra de cobiça, sem desejo de sedução ou posse.
Yeshoua tem um olhar de criança surpresa (seremos julgados por um olhar de criança?). A única questão que ele poderia colocar é esta: Mulher, paraste de sofrer? Ainda te sentes infeliz? Sabes agora que o amor que procuras fora de ti reside dentro de ti mesma e que enquanto não o tiveres encontrado, não o acharás exteriormente? Se este Amor estiver em ti, tu serás capaz de amar sob quaisquer circunstâncias, favoráveis ou desfavoráveis, nada nem ninguém podem impedir-te de amar, tu és livre, tu és capaz de amar, até mesmo os teus inimigos, até mesmo o teu marido… “Vai, de agora em diante não peques mais”.
- De agora em diante, não te afastes mais desta fonte que existe em ti, não passes ao largo da tua vida.
- “Procura primeiro o Reino”, ou seja, o reino do Espírito em ti e “tudo o resto te será dado em acréscimo”. De agora em diante, vai! Não olhes para trás, o que passou, passou, tu podes fazer todas as coisas de uma forma completamente nova.
Yeshoua não a fechou no remorso ou na culpa. A sua alegria é a de ver essa mulher caminhar, ir em frente, novamente capaz de desejar, esse desejo que esteve um instante desorientado. “Vai! Tem confiança em Deus. O Mestre do impossível dar-te-á a cada dia a força para amar. Vai! Sê feliz!”
Jean-Yves Leloup, Judas e Jesus, Duas Faces de uma Única Revelação